segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Controle nada absoluto

    -E ai Pachón? Vai beber o quê?
    -Vai uma Swhweppes mesmo...
   -Tá de brincadeira né? É final de semana!!! Vai uma bebida mais forte ai...
   -Cara nem bebo. Nunca bebi nada alcoólico, porque nem curto beber.
    Bebidas alcoólicas nunca me interessaram. Nunca tomei um gole e, provavelmente, não irei me aventurar a experimentar. Meus parentes e amigos já me ofereceram um trago, porém recusei. Das pessoas que bebem, não penso nada. Não discrimino ninguém por beber. Se fosse o caso, já teria me afastado de bons e velhos amigos. O fato de me recusar a beber, não se deve a pensamentos preconceituosos e nem a ser bem sucedido ao ingerir bebidas alcoólicas, mas sim a uma pequena, porém significativa experiência que tive quando pequeno.
    Era aniversário do meu bisavô. Fazia exatamente 100 anos de idade que o Senhor Ferrucio, ou vovô Ucho, como costumávamos chamá-lo, veio ao mundo. Meu irmão e eu não tínhamos muito contato com ele, além do mais ele residia em Sacramento, onde a maioria da minha família paterna, também morava. (E ainda mora.) Mas pouco contato, não era desculpa para não irmos à festa do Vô Ucho. Além do mais, não é todo dia que uma pessoa faz 100 anos de idade.
    Quando chegamos até Sacramento, estava chuvendo. Vô Ucho estava sentado em sua pequena cadeira de balanço recebendo a todos com um grande sorriso, dando um grande e apertado abraço e ainda raspando sua grisalha, porém pontiaguda barba em nossos rostos. Todos os parentes estavam presentes além de meus bons e velhos primos. Sua casa era antiga, porém de grandes proporções. Ao fundo, em uma pequena varanda, havia pequenos papagaios que ao som de “Loro!!!, Loro!!!” voavam em seu ombro. No mesmo local havia um pequeno tanque cheio d’água, sem muita utilidade.  A festa prometia. Muita comida, e muita bebida. Principalmente bebida alcoólica. Meus tios aproveitaram e começaram a “encher o tanque”.
    Algumas horas se passaram. Meu irmão e eu jogávamos com os primos. Minhas tias e meus primos mais velhos jogavam buraco juntamente com o meu Vô Ucho. Tudo estava correndo...
    -Ahhhhhhhhh!!!!! Tá na hora de tacar todo mundo no tanque!!!!!!! Quem vai ser primeiro???!!!! Já sei !! Vem cá minha querida Tia M. você vai ser a primeira!!!!
     -Não !!!!! Para, não faz isso, por favor !!!!
     -Agora mesmo vão ser vocês meninos!!!!
    Meu irmão, eu e meus primos, nos entreolhamos sem saber o que fazer. Primeiro iriam encharcar as mulheres para depois fazerem o mesmo com as crianças. A solução mais eficiente que encontramos foi nos escondermos em um pequeno quarto juntamente com minha mãe e minha outra tia. Da janela podíamos ver a forte chuva a qual estava causando uma grande enxurrada. Aproveitando a água, visivelmente suja, que corria pelo passeio, meus tios, visivelmente bêbados, resolveram colocar o cabelo da minha tia na enxurrada. Fiquei assustado. Meus tios riam incessantemente enquanto minha tia gritava aos montes. Pra mim não fazia sentido. Como uma bebida pode mudar tanto uma pessoa? Porque eles estavam agindo assim? Será que eu vou ser assim quando crescer?
    Meus pensamentos foram interrompidos por fortes batidas na porta do quarto no qual nos escondemos. Meus tios gritavam perguntando quem estava dentro do quarto. Não respondíamos. Tentavam abrir a porta, porém nós a tínhamos trancado com chave. Eles desistiram. O tempo passou, e percebemos que a calmaria dominou a casa. Resolvemos sair.
    Tudo estava calmo demais. Minha Tia, que foi a primeira vítima das peripécias dos meus tios, tomava banho, tentando lavar o cabelo, todo sujo pela enxurrada. Resolvi ver onde estavam meus tios para saber se o local estava seguro. Não os encontrei. Porém, eles estavam escondidos...
    -Ahhhhhhh!!!! Peguei o Bernardo!!!!!
    -Não!!!! De onde você saiu!!!!! Me coloca no chão!!!! Mami me ajuda, por favor!!!!!
    -Por favor, coloca meu filho no chão!!!!
    -Calma!!!! Não vai acontecer nada!!
    -Me solta!!!! Por... Por... Favor...
    Comecei a chorar e a gritar de forma compulsiva. Meu tio me levava para o tanque cheio de água, nos fundos do quintal. Não sabia nadar, e a água estava suja. Chegando a poucos metros do tanque, meu tio me balançava em seus braços enquanto ria sadicamente, me ameaçando jogar no tanque. Minha mãe interveio a tempo e me tirou dos braços do meu tio.
   Infelizmente, a cena anterior ficou marcada. Como disse não sou contra quem bebe. Na verdade parabenizo aqueles que conseguem beber sem perder o controle, sem sair de si. Não me aventuro a experimentar porque tenho medo de bebida, mas sim, porque tenho medo do que a bebida pode fazer comigo. Eu prezo pelo controle absoluto. Sei que um gole não vai me deixar bêbado, mas, como acontece com todos os prazeres, sendo eles ruins ou bons, quem experimenta uma vez, sempre vai à procura de mais.

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