quarta-feira, 14 de março de 2012

A palestra de Herbie

    -E ai Bernardo? O que você não gosta de fazer? Tipo, o que você mais odeia?
    -Por mais incrível que possa parecer, eu odeio viajar...
    -Viajar??!! Mas viajar é a melhor coisa que existe!!!
    -Não com o meu pai...
    Viajar com o meu pai sempre foi sinônimo de desastres. Meu irmão, eu e minha mãe tínhamos que nos preparar psicologicamente e fisicamente antes de qualquer viajem na qual o meu pai estivesse no controle da direção, pois sua impaciência, imprudência e irresponsabilidade nos traziam muita insegurança e a certeza de que mais cedo ou mais tarde algum problema iria nos atormentar. Além dos péssimos predicados, meu pai possuía um fusca, com características bastante peculiares no qual, infelizmente, viajei por um bom tempo.
    Era um Fusca de 79, com pneus carecas, direção dura, poltronas úmidas e desconfortáveis, chão mal forrado, teto com capa rasgada e visivelmente manchada, pequenas janelas trincadas, cintos enroscados, rádio estragado, câmbio de marcha meio travado, ferrugem nas laterais, pára-choque amassado, step em mal estado e entre outras características que vez ou outra impregnavam a lataria. Apesar de tudo, meu pai amava seu fusca. Mas não o amava por ser um apaixonado por carros, apenas o amava por ser uma sucata mais econômica, além do mais não media esforços para concertar o seu “carro”. Para ele, se o veículo se movimentasse de uma ponta a outra estava em ótimas condições de realizar quaisquer viagens.
    Foi nas condições anteriores que tivemos que viajar a Santo Antônio da Alegria, uma pequena cidade com um pouco mais de três mil habitantes, para o aniversário do meu tio na casa da família de sua esposa, minha querida Tia. Por mais incrível que possa parecer tudo correu bem na ensolarada viajem de Uberaba a Santo Antônio. A festa foi ótima e até mesmo meu irmão e eu, que não fazíamos aniversário, ganhamos presentes.
   Parece que o belo dia se entristeceu com algo, e fechou a cara, dando lugar a nuvens carregadas e chorosas na nossa volta a Uberaba. Enquanto viajávamos em um fusquinha apertado e em péssimas condições de suportar quatro pessoas em um só veículo, observávamos a chuva torrencial que castigava a paisagem. Repentinamente senti algo frio e úmido subindo pelos meus pés. Pensei ser um dos sintomas do frio proveniente da forte chuva. Enganei-me.
    -Mami!!! O carro tá inundando!!!
    -Meu Deus, não pode ser!!! Maurício para o carro!!!!
    -Parar o carro???!!! Vocês só podem estar de brincadeira!!! Vão ter que esperar.
    O carro começou a inundar, porém apenas a parte de trás do carro foi invadida pela água, onde meu irmão e eu estávamos. O chão, sujo de papéis de chicletes “Trident” e jornais religiosos agora subia pelos nossos pés, encharcando nossos sapatos e meias. A solução foi cruzarmos as pernas e esperarmos que aquela água suja, saísse com o tempo. Foi horrível. Não podíamos abrir a janela por causa da forte chuva e por essa razão tivemos que suportar o cheiro de podridão proveniente da mistura de água e lixo dentro do “Tietê móvel”.
      A chuva se tornou mais amena e rapidamente encontramos um posto de conveniência a beira da estrada. Estacionamos a sucata ambulante e saímos do suposto “carro” apressadamente para começarmos uma busca por baldes ao redor do posto. Encontramos um ou dois baldes e começamos a retirar a água, já de cor turva. Em pouco tempo colocamos o pé na estrada e no piso do fusca, que apesar de não estar encharcado de água, continuava a exalar o mesmo cheiro de podridão.
     A cada quilometro rodado mais perto de Uberaba, a nossa felicidade era maior. Não havia mais nada que pudesse dar errado, apesar de que o fusca, o qual estava em péssimas condições, emitia sons e remexia sua lataria nos levando a pensar que o pior poderia acontecer.
     A noite dominou a estrada assim como nossa felicidade dominou os últimos momentos da viajem. A placa de “Bem Vindos a Uberaba” estava a poucos metros. Quando o carro se preparava para passar abaixo da placa, o impossível aconteceu:
    -Papi, porque você parou o carro?
    -Eu não parei o carro. Acabou a gasolina – disse meu pai entre gargalhadas
    -O que?? Gasolina acabou??? De noite?? Agora!!!???
    -É, e os ladrões, bichos do mato, e leões da Ásia Ocidental vão te pegar!!!! – Dizia o meu pai ao som de suas risadas sádicas.
   Como éramos pequenos, infantis e inocentes o modo como expressaríamos nossa dor e revolta seria chorando. E foi o que aconteceu. De um lado dois meninos chorosos, do outro uma mãe desesperada tentando entender o que havia acontecido e apaziguar a situação, do outro um pai que a cada segundo que passava, fazia o grande favor de alimentar os nossos medos em uma noite escura, no meio de uma estrada ao lado de um alto matagal pouco iluminado.
     A solução foi pedir ajuda. Mas meu pai pediu ajuda ao meu avô paterno que na época contava com 80 anos e velocidade não era seu forte. Uma hora de sofrimento e espera até que me avô aparecesse com um galão de gasolina. Finalmente pude ir para minha casa e repousar meu corpo em minha pequena e aconchegante cama além de rezar para que no dia seguinte, os desastres do dia anterior fossem esquecidos.
     Hoje o meu pai raramente usa de seu velho fusca, pois, há pouco tempo atrás, por exigência de seus filhos e de sua ex-esposa, foi obrigado a trocar de carro. Mudou de carro, mas o pão durismo ficou. Comprou um Fiat Uno Mile que em menos de uma semana apareceu com um amassado no pára-choque, retrovisor quebrado e maçaneta da porta direita estragada. E concertou? Não, pois ele ainda se movimenta, ou seja, é desnecessário o seu concerto, porém, tudo o que meu pai utiliza em seu dia a dia, mais cedo ou mais tarde se torna inutilizável, estragado ou em péssimas condições, assim como aconteceu com o Fusca.
     Herbie de “Herbie: Meu fusca turbinado” ganharia um bom cachê dando palestras de “Como cuidar do seu carro” aqui em Uberaba, para pessoas como meu pai. Ensinar idéias óbvias às massas populacionais pode gerar um bom dinheiro. Vamos fazer negócio Fusquinha?